segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Somos Prisioneiros ou Cidadãos?

Posted by MARDEN BASTOS -Real Estate Sales Representative at EXIT Realty Lake Superior at 14:37
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Este fim de semana, enquanto meu marido tirava a porta de vidro que dá acesso ao quintal para dar manutenção, eu me lembrava do meu sentimento de insegurança quando nos mudamos para o Canadá. Nós morávamos no Frenchman's bay em Pickering, num condomínio de townhomes, de frente para o lago Ontário. Um lugar lindo! O fundo da casa tem vista direta para o lago, totalmente sem obstrução, sem muros, com um basement com saida para o quintal. Um pequeno poço onde eu via patos e marrecos todos os dias e cheguei a ver até castor. Mas aquela porta enorme de vidro sem grande e sem fechadura me deixava apavorada. Eu passei mais de uma semana sem dormir direito por causa disto até a começar a perder meu resquício de prisioneira.
Foi aí que fui me dar conta da inversão de valores que se cria e enraiza em nossa personalidade. Somos milhões de prisioneiros de nossas próprias “carandirus”, construídas com requintes de carinho e luxo, de acordo com as posses de cada um. Somos cidadãos honestos e trabalhadores mas prisioneiros com privilégios, que trabalham durante o dia e voltam para nossa cela durante a noite. Com a diferença de podemos sair e entrar a hora que quisermos, sem ter que prestar conta a nenhum carcereiro ou diretor de presídio. Mas a maioria das carandirus privadas tem tudo que aquela lá de São Paulo tinha: cerca elétrica, muro alto, e alguma são mais arrojadas tem até circuito interno de TV e alarme quando uma porta se abre fora de hora. Quando penso que somos “animais racionais” penso também de somos masoquistas, pois além de vivermos felizes dentro de celas, queremos uma que tenha uma faixada bonita. Escolhemos o desenho das barras que vão nos prender: uns querem algo mais bordadinho, outros preferem de forma mais rústica e outros querem algo mais “clean”, mais moderno.
Eu, como milhões de brasileiros também já construí e reformei algumas carandirus para mim e minha família. A última que reformei no Brasil, eu a comprei em 2000 e renovei tudinho. Um ano, com predreiro dentro de casa, quebrando, mudando parede, tornando a planta da casa mais aproveitável. Troquei janelões com grade externa por janelões modernos com grande acoplada. Troquei uma rosácea horrorosa com 1, 7 metros de diâmentro por três janelas menores pivotadas e com tranca de segurança. Mantive as portas de madeira maciça mas coloquei 2 tetrachaves em casa uma. Aumentei o muro em locais mais vulneráveis e coloquei o famoso caco de vidro em cima para dar continuidade ao que existia. Como o layout da casa em baixo não era simétríco com a parte de cima e tínhamos um dente de lage que tornava a casa vulnerável, durante a construção tívemos a visita de um ladrão. Então resolvemos aumentar a lage, mudar a janela do quarto vizinho de lugar e construímos um banheiro para este quarto. A clarabóia que era aberta, ganhou uma grade de ferro e telhas de vidro. A porta nanica de 1,80 de altura, que dava acesso da garagem para dentro de casa foi eliminada e no lugar dela , eu pessoalmente desenhei um painel de vidro, cuja distancia entre uma barra e outra era pequena para dispensar a grade. Paguei mais caro mas escolhi o tipo de ferro com dureza mais alta para aumentar a segurança. A tubulação para instalação de sistema de circuito de TV, interfone e portão eletrônico tudo foi deixado espera.

Como tantos brasileiros eu também tenho minha coleção de histórias de problemas de segurança. Minha farmácia foi assaltada oficialmente três vezes: uma a mão armada, uma na calada da noite e uma por descuido nosso que deixamos o caixa sem lacrar. Mas fora isto, inúmeras vezes pegamos ladões que chegam , abrem a sacola e raspam um box inteiro de mercadoria. Alguns já tínham até cara conhecida por nós. Outros por trás de boa aparência vinham e praticavam pequenos roubos de produtos. Meu carro foi roubado e recuperado algumas horas depois, mas me custou 6 horas de tramites para liberar no DETRAN. Sem contar a confusão gerada por telefonemas desencontrados de familaires me procurando no meu celular, que naquele dia estava com o marido numa viagem a trabalho, e que no final gerou a ideia de que o carro havia sido roubado e eles achavam que eu estava dentro. Pelo menos 3 horas de agonia para meu marido, mãe e sogros até que tudo fosse esclarecido Além disto no dia seguinte ainda teve a conta do mecânico pois o camarada passou emlugares que não devia enquanto fugia da polícia. Tentativa de assalto por um moleque no sinal de trânsito com um caco de vidro na mão. Roubo na minha casa onde levaram teclado, ferros a vapor, roupas, video games, whiskies, serra elétrica, cortador de azulejo elétrico, furadeira. Roubo ao meu filho onde levaram tenis, jaqueta, ticket de ônibus e o dinheiro. E poucos meses antes de me mudar, meu carro foi seguido numa avenida durante a noite a uma distância tão curta que não conseguia sequer ver o farol do carro atrás. Quando entrei na vizinhança que morava e o carro não distanciava, eu dei seta como quem ia parar, e fiz uma manobra contraria entrando numa rua em frente, cortando o trajeto de um outro carro que vinha em sentido contrário, de forma acelerada e desapareci na meio do bairro. A segunda vez que isto aconteceu, eu sai da avenida e voltei imediatamente, entrei em outra rua e como o carro não mudava de direção eu me direcionei para um batalhão de polícia.

Meu marido uma vez presenciou algo que parecia cena de filme. Ele trabalhava numa cidade a 100km de Belo Horizonte e fazia este trajeto todos os dias, geralmente com dois outros colegas e o motorista da empresa. Naquele dia eles estávam atrás de um caminhão de valores e eram o quarto carr, na BR 381 menos de 1 km acima da famosa curva do kilometro 30, bem na curva entre os paredões de rocha. . Logo atrás do caminhão tinha um Fiat 147, um corcel e um monza. De repente escutaram um barulho e o motorista disse: “parece que o pneu do caminhão estourou”. Nisto o passageiro da frente viu um camarada na janela do corcel com arma apontada para o caminhão. Ele disse que era um assalto e nisto o motorista virou o carro na direção contrária. Nisto o caminhão também virou porque dali para diante era uma subida de serra. E ai ficou o carro onde estava meu marido e os colega, o caminhão de valores e os bandidos atrás atirando. Como na direção que eles estavam agora era descida, e não tinha carro na frente, o motorista do carro do meu marido conseguiu distanciar e aí pegaram a estrada para Caetés e se safaram desta confusão sem nenhuma consequência.

Além de viver este clima de intranquilidade outra coisa que me incomoda são os sentimentos que tomam conta da gente depois do fato ocorrido: fazemos um balanço positivo do fato e passamos a ser apenas mais um. “Ainda bem que ninguém saiu ferido”. “Eles roubaram somente bens materiais. Isto a gente controi de novo”. “ O meu carro foi roubado mas foi achado dois dias depois.” Ou seja, vivemos a eterna filosofia de Poliana. Apesar desta ser uma boa filosofia de vida, não tenho visto nehuma melhora na situação de segurança no país.

A realidade aqui é tão diferente que a gente esquece o que é problema com segurança. Podemos sair às ruas e usar telefone, Ipod, jóias sem aquele receio de que seremos assaltados. Não precisamos construir nenhuma carandiru para morar e hoje com certeza uma casa cheia de grades incomoda. Embora exista assaltos e crimes e estes índices variam de cidade para cidade, a neura com segurança nem de longe se equipara ao que vivemos no Brasil. Na época que eu morava aí , esta preocupação existia nas cidades grandes, mas hoje , quando converso com amigos e parentes que moram em lugares pequenos, os comentários são sempre os mesmos: de que as coisas estão cada vez pior.

Se a grande parte da sociedade é aquela que é honesta, trabalha e produz, porque é justamente esta parcela que tem viver encarcerada e ainda pagar toda a conta  e ainda pagar extra para ter um fio de cabelo no lugar. Antes havia uma desculpa: não há emprego suficente. E hoje que o país está numa posição privilegiada no panorama mundial, com uma explosão na economia e sobrando vagas nos diversos setores, qual é a causa, qual a desculpa?

Não é a toa que o imigrante se se sente atraído pelo Canadá. Apesar das cidades grandes terem problemas semelhantes as proporções são kilométricas. Os índices são muito menores, a severidade geralmente menos grave.

Num momento político como este que o Brasil passa, de eleger um novo presidente, é muito importante ver quem tem a melhor plataforma de governo mas também quem tem um passado mais limpo e de obras. E as pesquisas indicam que a segurança hoje já se tornou uma preocupação que supera educação e emprego. Espero que o novo governo olhe para isto com mais atenção pois as coisas erradas no Brasil estão se tornando muito banais.

1 comments:

Maicon Nascimento on 14 de outubro de 2013 01:29 disse...

Incrível como suas palavras, muito bem postadas, diga-se de passagem descrevem meus sentimentos! Morar aqui no Brasil não é pra qualquer um!! Haja paciência, cuidados e claro, muita, muita sorte mesmo. Estamos expostos a todo momento! Assim como você, não acredito que as coisas possam melhorar nos próximos anos, e não seria ousadia dizer 50 ou 100 anos. Muito triste isso!
Meus sinceros parabéns pelo Blog!! Já o salvei na barra de favoritos..

Até!

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